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OPINIÃO

A PANDEMIA NÃO RESISTIU ÀS ELEIÇÕES

Doutorando em Geografia e professor da UFMA.

Doutor em História, professor da UEMA e defensor público federal.

 Upaon Açu A campanha eleitoral não seria capaz de acabar com o coronavírus. Impressiona, no

entanto, a rapidez com que as eleições vindouras destroem a coerência do discurso do
cuidado com a saúde coletiva no atual contexto de crise sanitária. Independentemente do
que até aqui foi sustentado publicamente quanto ao combate à Covid-19, o
desrespeito ao
distanciamento social e o incentivo às aglomerações aproximaram diferentes siglas
partidárias.


A última semana foi marcada pela realização de convenções que oficializaram o lançamento
de nomes para concorrer ao pleito municipal deste ano. Com exceções pontuais, talvez
levadas a cabo bem mais pelo tímido número de apoiadores que pela preocupação com a
pandemia, o que se observou foi um completo
desrespeito e descaso com as normas
básicas de prevenção
ao contágio pelo coronavírus.


No Maranhão, onde normas estaduais e municipais acertadamente ainda proíbem
aglomerações
e restringem a realização de uma série de eventos, preocupa bastante o
recado dado pelas multidões chamadas às convenções partidárias. Mais do que isso, as
aglomerações demonstram os limites
da coerência e do real compromisso com a população
por parte de políticos que ocupam hoje cargos públicos e dos que pretendem ocupar.

 

Passeatas numerosas, auditórios e ginásios lotados e mesmo mega produções
comparáveis a shows de popstars. O início da campanha eleitoral não poupou formas de
incentivar a reunião das massas. As aglomerações foram uma marca dos lançamentos oficiais de campanha, tanto em São Luís quanto em diferentes municípios do interior do Maranhão.

 

Não faltaram ao encontro pessoas que compõem os já conhecidos grupos de risco à Covid.
Foram perceptíveis críticas às aglomerações desnecessárias e irresponsáveis
incentivadas
pelas coligações partidárias, algumas delas registradas em comentários nas transmissões
ao vivo dos eventos pelas redes sociais.

 

As respostas dadas por apoiadores dos candidatos, também na forma de comentários, quando não ofensivas aos que questionavam as aglomerações, foram infundadas. “Mas todos estão de máscaras!” ou “os outros candidatos também realizaram aglomerações!”.

 

A primeira talvez se baseia numa propriedade das máscaras ainda desconhecida pela epidemiologia, que a torne suficiente para impedir o contágio. A segunda se fundamenta na ideia falaciosa de que o erro de todos produz alguma espécie de acerto.
 

Os mesmos candidatos que se passam por modernos, pautando sua campanha pelo brilho
reluzente da própria imagem nas redes, com intensa influência digital, não resistiram à
velha política do palanque e das bandeiras. Gestores que se proclamam exemplos para o
Brasil no combate à pandemia
cederam ao discurso que menospreza a crise sanitária,
portando-se de forma absolutamente contrária ao que pregam à população em geral.

Se por um lado as aglomerações vistas recentemente são apenas o começo de meses de
campanha eleitoral, por outro já bem demonstram o tom
hipócrita e mesquinho que está por
vir. Por certo, o discurso de combate à pandemia não sobreviveu ao primeiro momento das
candidaturas. A
ética e a coerência entre discurso e ação, tão raras na vida política
brasileira, foram mais uma vez golpeadas pelos interesses eleitoreiros, dessa vez por meio
do desprezo à pandemia, da desconsideração da saúde pública e do desrespeito aos
grupos vulnerabilizados pela
Covid-19.


O início da corrida eleitoral no Maranhão aproximou conservadores e progressistas.
Políticos que se apresentam como novidade e os já tradicionais, no fundo, parecem
compartilhar de uma coisa em comum, o
desejo pelo poder, que, nas palavras do antigo
filósofo grego Epicteto, é algo perigoso para debutantes.

*Texto originalmente publicado no jornal o Estado do MA e disponibilizado pelos autores ao Rumbora Marocar

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